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Mostrando postagens com o rótulo História

A Casa dos Passarinhos

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Alguma história fugiu das páginas para se pendurar numa árvore, vestiu-se de barro ornamentado e fantasiou-se de casa dos pássaros para se fazer presente no mundo real. Na árvore, a história ganhou vida ao som dos sonhos voláteis que ouvia nas noites de chuva; eram as aves tristonhas contando as peripécias do dia. Ao verem aquele abrigo chamativo, não hesitaram em entrar. Ali fizeram morada, mas logo partiram. Não aguentaram viver em um conto de fadas por muito tempo. Sentiam falta das emoções e desafios que um ninho feito no bico trazia. A casinha, então, presenciou o último voo de suas companheiras e ecoou a solidão pelo espaço vazio de suas entranhas. À noite chegaram os vaga-lumes. Acenderam-se no esplendor de sua fosforescência. Era a magia acontecendo de novo na velha casa dos passarinhos. Sentia-se um santuário aos pequeninos seres da luz e, durante toda a passagem do manto noturno, vibrou de contentamento por se declarar preenchida. Sua desilusão veio apenas de manhã, quando os...

Portão de Ferro

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Aquele portão de ferro me trouxe um espectro assombroso de tempos apinhados em lágrimas escorridas por rostos sofridos, calos em mãos que nunca pegaram numa caneta, terços rezados com afinco em noites de desespero, vida vivida no canto de barro e madeira carcomida. A igreja de portas fechadas; da escada, só lembranças de sapatos enlameados pelo percursos. Hoje, um jardim repousa ali. Suave como uma brisa tímida passando rasteira nos calcanhares de quem adentrava aqueles portais com altivez. A igreja não era para todos. Na fazenda havia um rio há muito explorado: de sangue, correndo vivo nas entrelinhas da história. A flores que tiram da terra seus nutrientes sequer sabem o que a mesma terra usou para nutrir-se quando uma mão no arado era mais valiosa do que no lápis. E apesar da severidade do tempo, a pequena igrejinha resistiu com as paredes alvejadas.  No adro, pedras encaixadas expondo manchas da estação. O musgo ressequido tomou conta dos lugares ocupados pelas pranteadoras dos...

Singela Cascata

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Hoje te contemplei, singela cascata; quase ofuscada em derradeiros rasantes, mas muito apreciada em páginas já esquecidas ou arrancadas de trágicos exemplares. Isso me fez pensar na vida: tuas águas minguantes outrora tão quistas, como puderam transpassar a história para o lado absorto da vivência? E apesar da sombra estampada pelas pedras molhadas, com ares de dias já findados, a pequena e tímida queda ainda compõe uma canção às aves que ali se banham. Tudo bem, cascata acanhada. É trabalho do tempo fazê-la correr por entre os rochedos e encontrar caminho na densa mata fria. Para que se lembrar da história agora? Só te traria tristeza, quando por conseguinte viesse ao reflexo de dias azulados o rubro tom do sangue derramado em suas margens agora tão plácidas. Quantos ali perderam suas vidas, banhando as feridas e enterrando os sonhos? Se eu soubesse a resposta, quem sabe teria tuas feições em meu rosto no instante em que meus olhos cruzaram teu reflexo. E outras cascatas escorreriam r...

O Pianista, de Wladislaw Szpilman

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Sempre afirmei que os romances históricos tem algo a mais para fazer os leitores concluírem sua viagem literária de forma primorosa. Tanto no quesito ficcional, quando eles conseguem se colocar na pele dos personagens, quanto no cultural, quando afloram em si o conhecimento histórico transpassado pelo exemplar vigente. Um livro é considerado bom quando os anos são para ele como flores no jardim: colorem sua essência.  Alguns meses atrás li O Pianista; romance altamente comentado por críticos de todo o mundo e transpassado pelos anos como um refletor de saberes. É de conhecimento que a obra deu origem ao premiado filme de Roman Polanski, retratando os horrores do massacre aos judeus pelos nazistas no período da Segunda Guerra Mundial. O exemplar contém tudo isso em suas páginas mas com um resplendor responsável por levar o enredo à sua singularidade poética.  A premissa saturada por outros autores não foi empecilho a Wladislaw Szpilman, pois o mesmo se encontra no seleto g...

A Conquista do Everest, por James Ramsey Ullman

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Amargamente decepcionado diante do fracasso da primeira tentativa, George Hebert Leigh Mallory estava decidido a arriscar mais uma vez antes da chegada das monções. O Everest era a montanha dele, mais que de qualquer outro homem. Fora o primeiro a marcar um caminho de escalada. Seu espírito ardente era a principal força motivadora por trás de cada lance vencido, e a conquista do topo era o grande sonho de sua vida. Agora seus companheiros percebiam que ele se preparava para o esforço supremo.  Mallory movia-se com a velocidade de sempre. Acompanhado do jovem Andrew Irvine, iniciou a subida a partir do passo onde estavam, no dia seguinte à descida de Norton e Somervell. Passaram a primeira noite no Acampamento V e a segunda no Acampamento VI, a 28.600 pés. Ao contrário de Norton e Somervell, planejavam usar oxigênio na última etapa e seguir a crista da cordilheira a nordeste, em vez de atravessar a face norte do desfiladeiro. A cordilheira apresentava dificuldades de subida...

São Damião de Veuster e os Leprosos

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Joseph Damien de Veuster (1840-1888) foi um jovem padre belga que se dedicou a cuidar de uma colônia de leprosos em Molokai, no Havaí. Chales W. Stoddard, residente no Havaí e autor do presente relato, visitou a colônia de Melokai em companhia de dois médicos do governo, em 1884. À primeira vista, Kalawao parece ao visitante uma próspera aldeia de quinhentos habitantes, se tanto. A única rua é margeada de chalés brancos com jardins floridos e graciosas árvores tropicais. Está situada tão perto da encosta que mais de uma vez as grandes pedras soltas pelas chuvas rolaram alto da montanha até as cercas nos limites da aldeia. Ao passarmos pela rua, o dr. Fitch era cumprimentado por todos. Sua visita mensal já era esperada e sucediam-se as saudações de "Aloha!" , partindo de todas as portas varandas e janelas.Um grupo mais entusiástico jogava os chapéus para o alto dando vivas ao "Keuka" (o doutor), entremeando a animação com risadas infantis.  Até então, a br...

Os Italianos, de João Fábio Bertonha

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Para mim, o livro de João Fábio Bertonha foi um dos mais especiais em meio aos inúmeros títulos históricos que já abordei no site. Isso porque o mesmo diz respeito aos italianos e sua história, abrangendo temas diversos e contraditórios que são elucidados pelo historiador. Muito do que queria entender sobre como se deu a vinda de minha família para o Brasil está explicado no livro, numa linguagem extremamente acessível e fluída, além de outros temas importantes para o conhecimento de todos, não se prendendo apenas naqueles cujos costumes e origens estão presentes na árvore genealógica. Lançando a questão do que é ser italiano atualmente, Bertonha nos conduz a uma certa mutação da identidade nacional no decorrer dos séculos de sua história, enlaçando a economia, a política, a cultura e diversos outros fatores para dentro da dissertação. E isso é feito em dois extremos de um itinerário, tal qual sua influência rural em contraste com o mundo da moda e seus executivos competentes, ou ...

Israel: Uma História, de Anita Shapira

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É interessante quando encontramos obras de âmbito histórico que saem da angulação padrão dentro de seus respectivos temas. No caso do exemplar aqui resenhado, a professora Anita Shapira desenvolveu seu trabalho de maneira instigante e abrangente, sem perder a sensibilidade, fazendo de seu conjunto de textos uma rica fonte de estudo sobre o sionismo, que é o movimento internacional judeu resultante na formação do Estado de Israel e em sua posterior evolução. De acordo com a revista Publishers Weekly, trata-se de um guia indispensável, pois a autora faz uma grande análise histórica, econômica, social e cultural de Israel, utilizando a literatura hebraica de forma precisa para ilustrar os temas abordados em seu livro. Shapira não se limita apenas aos relatos de guerras e conflitos entre árabes e israelenses, como a maior parte dos autores que se propõem a escrever sobre o mesmo tema, partindo ao encontro de questões mais amplas como fatos ocorridos em períodos de paz, alicerces cult...

Os Portugueses, de Ana Silvia Scott

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A história de povos e civilizações é, sem dúvidas, um conhecimento ímpar que o indivíduo pode buscar a fim de apurar sua base cultural; mas, muito além disso, tal informação pode, também, mudar a forma com que o leitor enxerga sua realidade, tornando-se capaz de notar influências muitas vezes despercebidas e compreender o porquê de vários aspectos que englobam o cotidiano existirem e se interligarem pelo desenvolvimento cultural junto à dispersão de suas características ao redor do mundo. Em outras palavras, são como referências que se ramificam e ganham suas próprias vertentes, por isso o motivo de tamanha notabilidade dentro do conhecimento de diferente povos e seus costumes, pois foram a partir deles que se constituiu a atualidade como ela é; na soma de fatores que proporcionaram a nossa civilização vigente. Sendo assim, é de suma relevância aos brasileiros se aprofundarem na história do povo português ao longo dos anos, antes mesmo de chegarem à America e colorizarem o ...

A História da Tinta de Escrever

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Por ser algo fundamental que serviu para propagar a escrita no decorrer das eras e, consequentemente, a literatura, é muito bom sabermos como se deu a evolução da tinta que marca o papel, possibilitando a nossa entrada no fantástico universo dos livros. Pelo nome da tinta de escrever (em grego, énkaiston ), indicam-se os preparados que servem para escrever, para a imprensa e para vários fins industriais. As primeiríssimas tintas, naturalmente para escrever, foram idealizadas e compostas desde a mais remota antiguidade. Realmente, é ao chinês Tien-Chu, que viveu ao tempo do império de Huan Ti (terceiro milênio a.C.), que se atribui a invenção da chamada tinta da China.  Todas as primeiras referências sobre tal invenção falam do Velho Continente mas, de outro lado, também é digna de credito a documentação de Filon de Bizâncio (século II a.C.), que nos descreve uma tinta "simpática", precursora da tinta ferro-gálica, ainda em uso. Plínio refere-nos que os Romanos usavam...

Degas, Renoir e o Relógio de Orfeu, de Simon Goodman

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Se existe algo que desperta o interesse dos mais diversos leitores à história, é, sem dúvidas, uma caça ao tesouro enlaçada de todas as aventuras e percalços inerentes a ela. E estamos acostumados a ver tais jornadas nos exemplares fictícios, fruto da criatividade de seus autores; o que não deixa de ser emocionante. Mas quando esses acontecimentos não passam pelo imaginário das mentes criadoras, encontrando-se na tênue linha da realidade, a atratividade é muito maior. Isso porque percebemos que o conteúdo presente nas linhas do exemplar, de fato, ocorreram sem precisar ser inventados, mas apenas relatados. E sobre estes mesmos relatos, quando expostos em períodos marcantes da história, completam a primorosa obra verídica de caráter artístico requintado. De tal modo que com essas palavras posso salientar a minha experiência da caça ao tesouro com o livro Degas, Renoir e o Relógio de Orfeu, escrito por Simon Goodman. A obra apresenta um aspecto há muito esmiuçado por esc...

Diário do Conde d'Eu, organizado por Rodrigo Goyena Soares

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Diários sempre possuem uma conotação secreta dentro de seu contexto elaborável. São pensamentos, observações, experiências e reflexões enlaçadas nas considerações momentâneas em que foram escritas. Pois sabe-se que momentos são passageiros e como forma de perpetuar esse lapso de memória, surgem os diários dos mais íntimos instantes que marcam a estrada da vida assim como a tinta na ponta de uma pena marca o papel. Justo é o sentimento que se tem ao ver a obra solitária, cuja maestria das linhas permanecem obscura aos olhos de quem escreve; algo tão profundo e pessoal que só o tempo traz à luz para que outros olhos também possam desfilar sobre seus escusos parágrafos.  Sendo assim, o autor Rodrigo Goyena Soares, idealizou a organização e tradução de confissões presentes no diário de um personagem importante do século XIX em um momento que também carrega sua carga notável para a formação histórica de alguns países da América do Sul. O personagem em questão é Conde d'Eu, a...

A Verdade Sobre a Tragédia dos Romanov, de Marc Ferro

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Livros de mistérios possuem uma força singular para prender os leitores ávidos a descobrirem seus segredos por horas de leitura. Algo inexplicável perante ao desejo de emancipar o fim junto à agradável sensação de dizer: "eu já sabia". Entretanto, obras com parágrafos construídos em segredos fantasiosos são, na maioria das vezes, belas criações de autores consagrados à escrita de enigmas; fato que limita o itinerário do papel à realidade. Desse modo, aquele com a chance de escrever sobre o passado obscuro e duvidoso, perfurado de questões fundamentais para haver a presença da verdade, domina um campo da escrita pouco explorado por escritores, que se resume em desconstruir a história contada nos livros e apresentar fatos que enlaçam o mistério dentro da realidade. Se enigmas criados com o intuito de cativar leitores já é algo prazeroso de se ler, imagine os mistérios que, de fato, aconteceram, mas se perderam na noite do tempo durante quase um século? É neste ponto que o ...

As Pupilas do Senhor Reitor, de Júlio Dinis

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Clássico da literatura portuguesa, editado e publicado como livro em 1867 por Júlio Dinis, tido como um verdadeiro sucesso da época justamente por direcionar-se à classe popular e não restringir-se à elite acadêmica. Nesse período da segunda metade do século XIX, Portugal vivia anos de ouro para sua literatura, com nomes memoráveis tais como Almeida Garrett, Alexandre Herculano, Camilo Castelo Branco e Eça de Queiroz. Mesmo tendo esse rico acervo à disposição, as atenções dos ávidos leitores voltavam-se a uma obra em especial de um autor que se lançava no meio literário fazendo uso de um pseudônimo. O exemplar foi chamado por Herculano de primeiro romance português do século, enquanto Camilo vislumbrava o nascimento de uma nova geração. De fato, Joaquim Guilherme Gomes Coelho, mais conhecido como Júlio Dinis, entrou para a história como escritor, não usando a arte como uma arma, mas como algo sutil e sensível, condizente com a pena tida como o mais clássico instrumento de trabalho ...

À Primeira Luz da Manhã, de Virginia Baily

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Primeiro livro de Virginia Baily que tive a oportunidade de ler, e seguindo a premissa da sentença de que a primeira impressão é sempre a que fica, a autora conquistou um lugar na minha estante. Com a capacidade ímpar de conduzir o leitor pelos cenários construídos na obra, há um profundo mergulho na Itália dos anos de 1940 até 1970, discorrendo a narrativa cativante pelos panoramas históricos e ficcionais — mescla que só grandes autores conseguem fazer com maestria  — e coordenando os ditosos que viajam por entre as páginas do livro em um contexto sentimental entre tempos de guerra junto a passagens afetuosas que trazem o novo para um tema já tão explorado. De fato, essas características refletem o talento de Baily em reinventar aquilo que já foi esmiuçado por outros autores. Sua difusão de ideias brilhantes proporcionam uma gama de surpresas e acontecimentos sobressaltados capazes de prender não só os ávidos leitores, mas, também, aqueles que não leem com tanta frequê...

Travessia, de Leticia Wierzchowski

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Enfim, o último exemplar da trilogia A Casa das Sete Mulheres, que durou 16 anos para ser concluída. Com a maestria de Leticia Wierzchowski em conduzir romances históricos, Travessia fecha a saga com chave de ouro, formando uma das obras que mais enriquece o acervo nacional. Sua habilidade na escrita é refletida em emoções e sentimentos enquanto vamos virando as páginas de sua obra. Se no primeiro volume o enredo era focado na Estância da Barra, sob o olhar das sete mulheres  que passaram anos enclausuradas, e no segundo os cenário se abrangem e abrem espaço para novas premissas além da Guerra dos Farrapos, adentrando também à Guerra do Paraguai, com grande número dos mesmos personagens, o terceiro, por sua vez, focaliza o romance entre Anita e Giuseppe Garibaldi. Estes que são conectados pelo apreço imensurável à liberdade transmitida em suas nuance, fonte da sensação de autonomia e independência aos leitores ávidos por aventura e historicidade. O contraste entre a...