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Mostrando postagens com o rótulo Sentimento

A Casa dos Passarinhos

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Alguma história fugiu das páginas para se pendurar numa árvore, vestiu-se de barro ornamentado e fantasiou-se de casa dos pássaros para se fazer presente no mundo real. Na árvore, a história ganhou vida ao som dos sonhos voláteis que ouvia nas noites de chuva; eram as aves tristonhas contando as peripécias do dia. Ao verem aquele abrigo chamativo, não hesitaram em entrar. Ali fizeram morada, mas logo partiram. Não aguentaram viver em um conto de fadas por muito tempo. Sentiam falta das emoções e desafios que um ninho feito no bico trazia. A casinha, então, presenciou o último voo de suas companheiras e ecoou a solidão pelo espaço vazio de suas entranhas. À noite chegaram os vaga-lumes. Acenderam-se no esplendor de sua fosforescência. Era a magia acontecendo de novo na velha casa dos passarinhos. Sentia-se um santuário aos pequeninos seres da luz e, durante toda a passagem do manto noturno, vibrou de contentamento por se declarar preenchida. Sua desilusão veio apenas de manhã, quando os...

Portão de Ferro

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Aquele portão de ferro me trouxe um espectro assombroso de tempos apinhados em lágrimas escorridas por rostos sofridos, calos em mãos que nunca pegaram numa caneta, terços rezados com afinco em noites de desespero, vida vivida no canto de barro e madeira carcomida. A igreja de portas fechadas; da escada, só lembranças de sapatos enlameados pelo percursos. Hoje, um jardim repousa ali. Suave como uma brisa tímida passando rasteira nos calcanhares de quem adentrava aqueles portais com altivez. A igreja não era para todos. Na fazenda havia um rio há muito explorado: de sangue, correndo vivo nas entrelinhas da história. A flores que tiram da terra seus nutrientes sequer sabem o que a mesma terra usou para nutrir-se quando uma mão no arado era mais valiosa do que no lápis. E apesar da severidade do tempo, a pequena igrejinha resistiu com as paredes alvejadas.  No adro, pedras encaixadas expondo manchas da estação. O musgo ressequido tomou conta dos lugares ocupados pelas pranteadoras dos...

O Rouxinol e a Rosa: Um Contraste Material e Sentimental

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Debrucei-me na janela literária de Oscar Wild e pude contemplar o vasto campo emocional de suas palavras. Não pretendo fazer uma análise ou resenha da obra por ora, mas uma simples reflexão contrastada nos valores contidos no conto, bem como a moral extraída de matizes emocionais gotejados pela melancolia eterna de clássicas tragédias.  Atentemo-nos ao resumo: um homem convida uma senhorita ao baile. A mesma diz que só aceitaria se o cavalheiro lhe trouxesse uma rosa vermelha. Tomado de tamanho êxtase, o personagem sai cantarolando pelas ruas na esperança de encontrar a rubra flor em seu jardim para entregá-la a donzela. O mesmo então é surpreendido ao chegar em casa e perceber que em meio às inúmeras roseiras nenhuma se faz de rosas vermelhas.  Por conseguinte, o rapaz entra em profunda tristeza. Assim, o autor nos introduz a parte lúdica e extraordinária da narrativa. Um rouxinol que voava pelas redondezas emanando alegria por onde passava presencia todo o ocorrido e se como...

Querido Mundo, de Bana Alabed

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As histórias sob a perspectiva de uma criança têm sempre uma especialidade quando bem transcorridas. Um encanto à parte do leitor com as palavras que, embora simples, refletem mais sentimentos que muitos títulos elaborados. Independente do gênero ou emoção — riso ou choro —, o olhar da tenra idade infantil sobre a realidade transforma o contexto e nos faz pensar na vida. Esse processo se potencializa ao sabermos que se trata de uma história real, escritas às lágrimas de angústia e sofrimento na esperança de um futuro melhor. Sim, o livro Querido Mundo nos concede a sensibilidade e a empatia para percebermos o sofrimento alheio nos relatos de guerra feitos por uma menina de sete anos e sua busca pela paz. Segundo J. K. Rowling, trata-se de uma história de amor e coragem em meio à brutalidade e ao horror, onde temos o testemunho de uma criança que suportou o inimaginável. Bana Alabed comoveu o mundo ao utilizar o Twitter como uma ferramenta de súplica à paz. Lá, a menina síria desc...

O Trem que Leva a Esperança, de Alison Pick

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Depois de já ter lido algumas obras que abordam o tema dos judeus e nazistas do período da Segunda Guerra Mundial, desenvolvi a habilidade de perceber os diferentes ângulos que os autores utilizam para transcorrerem suas respectivas histórias, destacando os aspectos mais tocantes dentro de suas linhas de raciocínio. Seja pelo massacre; pela separação; pelo olhar de uma criança sobre o sangue derramado, o tema sempre irá nos despertar para novos questionamos, ainda que sua premissa já esteja esmiuçada. Nesse ponto, conseguimos perceber quem são os bons escritores: aqueles que conseguem extrair um novo panorama em meio à saturação do conteúdo. Alison Pick, de fato, teve esta capacidade ao escrever o Trem que Leva a Esperança. Não foi à toa que a consagrada autora canadense, colecionadora de vários prêmios ao longo de sua carreira, conquistou o Jewish Book Award e uma indicação ao Man Book Prize pela obra preciosa que ganha sua primeira edição brasileira. No período onde a esper...

Não Me Abandone Jamais, de Kazuo Ishiguro

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Em 2017, o autor Kazuo Ishiguro foi laureado com o Prêmio Nobel de Literatura por descobrir em seus romances de grande força emocional, o abismo sob o nosso ilusório senso de conexão com o mundo. Nascido no Japão, mudou-se para a Inglaterra aos cinco anos de idade e se tornou um dos mais célebres autores de ficção da língua inglesa, sendo contemplado com diversos outros prêmios por suas obras. Não Me Abandone Jamais talvez seja o livro de maior destaque de Ishiguro por ter sido considerado pela Time Magazine em 2010 como o romance da década. Segundo o autor, ter a oportunidade de crescer em solo inglês, mantendo suas raízes orientais, foi crucial para sua forma de escrever, já que contribuiu para o desenvolvimento de uma visão diferenciada; uma perspectiva que muitos de seus pares britânicos não tinham. Assim, ter a oportunidade de falar sobre um de seus livros é uma honra para mim, que assumo o papel de resenhista e leitor na mesma pessoa. O itinerário de sua narrativa...

Nas águas desta baía há muito tempo: Contos da Guanabara

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Não é novidade o meu imenso apreço por contos dos mais diversos estilos, e isso se dá pelo fato de conseguirem condensar suas emoções em poucas palavras buscando garantir uma breve, porém profunda, experiência aos leitores. E tal característica ainda é enriquecida pela concisa perícia do autor capaz de reduzir seus textos ao essencial sem perder a maestria da arte na narrativa. Ou seja: contos, para mim, são frutos de sentimentos refletidos em lapsos momentâneos, eternizados pelo suave toque da tinta no papel. Muitos são os leitores que começaram suas jornadas literárias através de um conto, pois nele encontraram a forma perspicaz e direta que buscavam para embarcarem no imenso oceano dos livros. E o interesse se potencializa quando há a junção daquilo que foi com aquilo que é, tal como as águas de uma baía, há muito tempo. Ainda que permaneça a mesma, os olhos que a veem em meio às suas águas já não são os mesmos, nem tampouco as vozes que ecoam junto à brisa da manhã. E sã...

Olhos de Carvão, de Afonso Borges

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A escrita de Afonso Borges é tão característica em seu primeiro livro de contos que se torna reconhecível logo nas primeiras linhas de cada capítulo. Tendo ele uma experiência literária bem vasta, consegue dominar a espontaneidade em meio às palavras que compõem a obra. Isso não é algo tão simples quanto parece, pois requer prática e muitas folhas de rascunho amassadas para, enfim, chegar no resultado almejado e passar a emoção àqueles que se aventuram pelas páginas do exemplar Olhos de Carvão. Ouso dizer que são o tipo de histórias onde cada um tem uma impressão singular; algo a ser experienciado de maneira tão particular quanto o fato empático, dado o momento em que o leitor se coloca no lugar do personagem e tenta compreender suas emoções e sentimentos. E falando em emoções, chave de seu enredo, o tempo é um fator importante a ser mencionado. Não é um livro profundamente detalhado em personagens e cenários, todavia em relances sentimentais na curta passagem do tempo de ...

Branco como a Neve, de Salla Simukka

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Não é aconselhável iniciar uma trilogia pelo segundo exemplar, porém eu não tive escolha. Apesar de precisar ligar alguns pontos do primeiro livro, consegui entender a premissa e o enredo, assim como diferenciar a escrita da autora dos demais thrillers investigativos disponíveis nas prateleiras das livrarias. Branco como a Neve é a continuação de Vermelho como o Sangue, lançado no início de 2017 pela Novo Conceito, atraindo olhares de leitores que buscam algo eletrizante e sombrio. Depois do sucesso do primeiro exemplar, lançado em mais de cinquenta países, que faz uma releitura diferenciada sobre os aspectos do clássico conto da Branca de Neve — nome dado também a trilogia por Simukka —, o segundo título continua com essa pegada de suspense referenciando o conto.  Mas claro que num tom muito mais sério no que diz respeito a menção de heróis e vilões. O curto período de tempo da narrativa, narrada em terceira pessoa, é uma característica da obra. Em menos de uma sem...

Sempre Haverá Você, de Heather Butler

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A perspectiva de realidade sob a consciência de uma criança, embora seja simples, supera toda a complexidade que há no interior de um adulto quando o tema é sentimento. O fato de transformar cada ação corriqueira, que muitas vezes passa despercebida por nós, em sinônimo de aventura e diversão é a chave do imaginário infantil que oscila entre a razão e a fantasia. Sempre Haverá Você gerou em mim um teor de nostalgia, fazendo-me recordar dos meus tempos de menino e reconhecer nas falas a inocência daqueles que levam a vida no gracejo, sendo capazes de sorrir mesmo em meio às tormentas. De certo modo, o exemplar mescla diferentes emoções àqueles que se aventuram por suas páginas, variando do humor à tristeza e tornando-se uma fonte de reflexão sobre os percalços da vida. George é o protagonista e narrador da obra. Trata-se de um menino de 10 anos extremamente normal que vive com seu irmão, Theo, de 8 anos, seu pai e sua mãe. Também não posso me esquecer de Goffo, pers...

A Livraria Mágica de Paris, de Nina George

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Não foi à toa que A Livraria Mágica de Paris se tornou best-seller em diversos países do mundo. A particularidade do enredo junto à escrita da autora, fizeram da obra uma ferramenta cativadora de leitores. No mais, o encanto e a primazia de um romance melancólico completam-se num cenário fantástico, desbravando desde a grande Paris até cidadelas e vilarejos que serpeiam junto às margens do Sena. Quão fantástico seria uma livraria dentro de um barco? Não falo de barcos de luxo, porém de um que encanta na simplicidade e sutileza. Talvez a peça principal dessa livraria excêntrica seja seu livreiro, Jean Perdu, o qual devemos atribuir um dom mais que especial, comparando-se a um farmacêutico literário; isso porque  o mesmo chama seu barco de Farmácia Literária. Com exatamente 50 anos, o protagonista vende seus livros como remédios, pois consegue perceber todos os sentimentos, preocupações e desejos que rodeiam a vida dos clientes que entram em sua loja, podendo ser capaz d...

O Velho e Seus Filhos (The Old Man and His Sons)

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Estava folheando um velho livro de contos, cujas páginas eram amareladas devido ao tempo, quando parei em uma que me chamou atenção. O desenho era triste, antigo e com traços fortes nas expressões faciais. Um senhor com idade avançada sentado numa poltrona, com seus quatro filhos em volta, apoiava sua mão esquerda na bengala enquanto a direita segurava um objeto. Foi então que iniciei a leitura e me surpreendi com o ensinamento passado. O texto original está abaixo em inglês, e, em seguida, a tradução para o português. Em poucas palavras, somos capazes de refletir sobre a grandeza da sabedoria inerente ao tempo. The Old Mand and His Sons An old man had many sons, who were always quarrelling with each other. After trying in vain to make them live at peace together, he one day hit upon the following plan.  He took a bundle of sticks, and asked his sons one after the other to break them. They tried with all their might, but in vain, for the sticks were closely and firmly bo...

O Veneno da Vaidade

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A lenta e corrosiva vaidade, que toma a razão daqueles que por ela são infectados, é considerada como pecado capital cujo modelo egocêntrico torna-se o motivo para se potencializar. Tal sensação egoísta possui registros tão antigos quanto as pirâmides do Egito, e, assim como elas, atravessou as eras arrastando seus pesos materialistas consigo. Não é à toa que sua representação passou a ser uma caveira em torno de bens materiais, sendo que a mais famosa das pinturas, produzida por Charles Allan Gilbert em 1892, mostra uma mulher se enfeitando em sua penteadeira; seu reflexo finaliza a maestria da obra, e como um todo, nossos olhos veem o crânio na imagem, vazia e isenta de futilidade. Pois assim como as telas expostas em museus, os antigos contistas também registraram suas experiências de vaidade. Narciso, por exemplo, foi traído pela mesma ao se debruçar no leito do lago e definhar-se com o tempo. Sua lenda já foi contada aqui, tanto em vídeo quanto em texto, e você pode con...

A Velha Fábula do Macaco e do Gato

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Há muito tempo era contada uma história para as crianças dormirem de um macaco chamado Simão e um gato chamado Micefufe. Eram de propriedade de um mesmo senhor e juntos, os dois,  levavam a vida como lhes era possível. Mas que bom par de tratantes aquele homem reunira em casa! Os dois diabretes não tinham medo de nada, e, por aí, podia-se aquilatar o que faziam. Se sumia alguma coisa em casa, ou se algum objeto aparecia quebrado, já se sabia. A culpa seria do irrequieto Simão. Micefufe, por seu turno, levava a vida sossegada, sem preocupações de nenhuma ordem. Até os ratos já andavam insuportáveis, por saberem que não seria aquele gato que lhes daria caça. Micefufe só se preocupava mesmo com o comer e engordar . Quando não estivesse cochilando, era certo encontrá-lo comendo. Certo dia, estavam os dois animais à beira do fogão, vendo assarem algumas castanhas e pactuaram entre si. É evidente que de uma aliança entre aqueles dois espíritos malignos nada de bom poderia sair....

O Acordo do Rebanho e a Alcateia

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Existe um antigo conto que nos narra a história de um acordo feito entre os lobos e as ovelhas que, depois de mais de mil anos de guerra entre si, resolveram, então, pela paz entre as duas raças, selar novamente a amizade de outrora.  Esse acordo era vantajoso para os dois animais, pois, se era verdade que de vez em quando um lobo devorava uma ovelha, não o era menos que, também, às vezes os pastores matavam os lobos, fazendo de sua pele confortáveis agasalhos. E dessa forma nem as ovelhas tinham sossego para pastar, nem os lobos quando saíam à caça. Umas e outros estavam em contínuo sobressalto. Portanto, em benefício de todos, era muito oportuno o tratado de paz. Como garantia de que todos os quesitos do tratado seriam observados, os lobos deram seus filhotes como reféns, o mesmo acontecendo com relação à outra parte interessada, as ovelhas, que entregaram os mastins de sua guarda. E a troca de reféns foi feita com toda a solenidade. Pouco tempo se passara desde est...

A Revolta da Cachaça, de Antonio Callado

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Imagine-se em casa, numa manhã tranquila, quando, de repente, chega uma entrega inusitada, sem nenhum bilhete, remetente ou endereço: um tonel cheio de cachaça. O objeto geraria surpresa e perplexidade; você se questionaria desconfiado? Foi exatamente essa a reação de Vito e Dadinha quando bateram na sua porta àquela manhã. A peça de teatro escrita por Antonio Callado, em 1958, trata de um tema delicado, ainda mais para a metade do século XX, onde as diferenças sociais e raciais eram muito grandes. Mas, como defensor do socialismo e da igualdade entre pessoas, Callado conseguiu fazer com que nós refletíssemos sobre uma época de sofrimento e dor, meados de 1660. "Ao que tudo indica, ainda mais lento é o ritmo das mudanças numa sociedade como a brasileira. O vaivém como método: crítica corrosiva de estruturas que se perpetuam." Pode parecer meio confuso o tratamento das datas, afinal, estamos falando de um "metateatro" — um teatro dentro do teatro. Vi...